quinta-feira, 12 de setembro de 2019
A Gulbenkian - 50 anos
Sou pouco dado a efemérides, ainda por cima quando elas se banalizam à tripa forra. Mas apercebi-me há dias que o complexo da Fundação Gulbenkian teve a sua inauguração em 1969. Na curva descendente do Estado Novo, o que lhe terá facilitado a vida, como farol de uma modernidade e de uma bandeira contra um regime hermético sob diversos pontos de vista.
Este último aspecto bastaria para uma certa nomenclatura balizar a data. Estranhamente ninguém fala destes 50 anos!
Vivencio a Gulbenkian há muitas décadas, tendo-me apercebido progressivamente da discreta magnificência do complexo. Posso dizer que me fui apaixonando por ele. Nunca conheci espaço mais umbilicado com a natureza, tecendo teias entre uma modernidade e um conservadorismo que não tem rival. Sinto-me tanto em casa como num espaço público, ou seja, existe uma dimensão doméstica que não nos esmaga, antes nos acolhe e conforta, e com esta se intersecta uma dimensão de fruição pública que não incomoda, antes, cativa. Desde a biblioteca ao auditório, desde os espaços museológicos aos jardins, tudo foi pensado de forma a não oprimir, antes, a acolher.
Todo o complexo faz parte, desde há cerca de três anos, da lista indicativa a património mundial da Unesco. Talvez alguém se lembre dos 50 anos para o reconhecimento. Mas pouco importa, quando esse reconhecimento está no coração de tantos.
Turner, naufrágio de cargueiro, Fundaão Gulbenkian
segunda-feira, 29 de julho de 2019
Tannhauser na colina verde
Um Tannhauser inteligente e desequilibrado, que me fez viajar entre o desespero de uma versão incompleta - tal como W disse pouco antes de morrer "Ainda devo ao mundo o meu Tannhauser"- e a sensibilidade quase colada à genialiduade da música. No saldo ficam as boas ideias de Kratzer, e a frustração de mais uma obra mal lida, malgré tout.
Bayreuth, 2019
Morrer em vida
Sonhar que se morre no sono. Pura cobardia, a de morrer sem sofrimento.
Mas será que a morte tem assim tanto significado? Claro que não, trata-se de apagar uma existência, a daquele que existiu e que não mais vai sentir o que quer que seja. Então porquê a cobardia? Porquê ser nobre morrer com sofrimento?
Expulsemos as religiões, verdadeiros demónios dentro de nós. Elas sim, o capote dos cobardes que não nos querem deixar morrer em vida, de viver a única forma digna de morrer. Ao sol.
Hopper, Woman in the sun , People in the sun
segunda-feira, 8 de julho de 2019
No peito dos desafinados também bate um coração
Percebe-se o exagero de Caetano "Melhor que o João só o silêncio e melhor que o silêncio só o João"
Fica a outra certeza do João Gilberto, a de que todos morremos, mas mais felizes porque ele nos deixou a sua musicalidade embrulhada em sensibilidade de desafinado e para desafinados.
Antony Gormley, escultura
quarta-feira, 19 de junho de 2019
Afinal, o que somos nós individualmente?
Conseguimos ter-nos de pé, na absoluta fragilidade do esqueleto abandonado pela carne. É isto que somos, mesmo quando pensamos de cócoras.
Antony Gromley, diversas estátuas
quarta-feira, 27 de março de 2019
Dos que morrem porque não escapam à lei da morte
Desde o seu nascimento, que sabemos que irão morrer. E morrem, ainda que a sua vida nos tivesse preenchido de alguma forma. Ainda que de tal inexorabilidade nos tivéssemos esquecido.
Têm sido tantos os que abandonaram o mundo dos vivos, tantos os que nos deixaram obras perpétuas, que seria injusto mencionar uns quantos e, por falta de espaço e de organização, olvidar outros.
Talvez um dia venha a escrever o que hoje me apeteceria se o tempo - velho inimigo - me não concede. Digo apenas isto; Scott B já se tinha unido a Jacques B. Esta semana ficaram no mesmo plano.
Almada Negreiros, arlequim, bailarina, cavalo
Nobel sem nobreza
Pois este ano o Nobel da literatura vai ser atribuído duas vezes, recuperando a patética não atribuição do ano passado (meu Deus, Jesus, Credo, os escândalos sexuais que Ninguém sabia que existiam!!!).
Ainda que eu menospreze o Prémio como sinónimo de qualidade garantida, não posso evitar a tentação de pedir um daqueles prémios para o Marias. Se atribuído, por ser um num ano de dois, certamente o outro premiado manteria os nobres holofotes sobre o cobiçado Nobel. E assim a injustiça dos justos se perpetuaria.
Afremov, desolação
terça-feira, 19 de fevereiro de 2019
Retrocesso ou Avanço civilizacional?
Em França erradicam-se os termos Pai e Mãe, dos manuais escolares, substituindo-os por Parent 1 e Parent 2.
Brilhante retrocesso civilizacional que, de forma aparentemente simples, vai imprimir nas mentes em formação, um novo estereotipo dos seus progenitores.
Mas também um brilhante avanço civilizacional, pois resolve a equação de múltiplos Parents, já que sabemos que o ser humano tem recalcada uma certa tendência poligâmica, mas que o futuro, onde vale tudo, nos irá positivamente trazer. Já estou a imaginar os novos crimes de época: Parent 23 assassina Parent 3 por discordar da educação que este queria dar ao filho...
Que maravilha! Que admirável Mundo Novo, nunca sonhado por Huxley!
Posso não querer conhecer este novo mundo?
Keith Haring, A árvore da vida
domingo, 17 de fevereiro de 2019
Regresso a um certo impressionismo
Algum Sorolla veio a Lisboa, algum impressionismo veio a Lisboa, num regresso à cidade luminosa de obras luminosas de um mestre da luz. Brevemente, será Londres a receber uma vasta retrospectiva de Sorolla. Londres bem precisa de luz.
J Sorolla, o magnífico regresso da pesca e a luminosidade de Valencia e Biarritz
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019
memorabilia - que fazer com ela em vida?
Ao longo da vida acumula-se muita tralha. Grande parte inútil, porque nunca foi revisitada. Outra parte, a estimada por quem a guardou - livros, música, filmes - que fazer com ela? e quando?
Pilhas de livros e milhares de horas em música, que precisariam de uma outra vida para serem revisitados. As solicitações imediatistas ao alcance dos jovens de hoje são de tal forma enebriantes que aqueles activos nada significam. Já para não falar do valor emocional que esta ou aquela obra tiveram para o coleccionador arquivista.
Quem, hoje, olha para aquelas obras como material fundamental para compreender um mundo que se vai esvaziando de valores, de História?
Quem, hoje, os poderá acolher como monumentos vivos?
Quem, hoje, não encolhe os ombros ao coleccionismo, ao acumular de registos históricos?
Quem, hoje, não desdenha estas heranças, quais despojos de um maníaco?
É fácil não fazer nada e deixar o problema aos herdeiros, para quem não passa de lixo.
Mas também há a alternativa romântica: destruí-la em vida, como o último gesto de afeição. Mas, e quando? e por que ordem? de preferência, de registo?
The greatest person of the 20th century
À parte a polémica que estas nomeações sempre trazem, não deixa de ter sido uma personalidade marcante. Ligado à descodificação Enigma, foi sem dúvida o grande pioneiro da inteligência artificial. Castrado quimicamente na Inglaterra puritana e hipócrita, restou-lhe o suicídio. Depois a Rainha amnistiou-o do "crime" de ser homossexual e um Primeiro-ministro pediu desculpa à família.
Então, a referência impõe-se.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2018
Gesamtkunstwerke, é pessoal e intransmissível
Tenho assistido a discussões sobre as múltiplas encenações das obras de Wagner. Como ponto de partida para legitimar toda e qualquer "versão", está a incentivação que o Mestre fez antes de morrer para que quem pegasse nas suas obras fosse criativo.
Mas, ser criativo dentro do conceito de obra de arte total.
E o que se tem verificado ultimamente é a usurpação, pelos pândegos da regietheatre, das obras, travestindo-as com a mediocridade das suas visões. Banalizando a genialidade com as suas provocações. Salvo algumas excepções, ou alguns momentos de inspiração, os resultados têm conseguido desequilibrar o balanço requerido para se assistir a uma "obra de arte total". Total e não parcial, com versões dominadas pela teatralização, ofuscando a música e o texto com os devaneios provocadores de quem quer conquistar notoriedade à custa da genialidade do criador. Ao ponto de se falar do Anel de Fulano, do Parsifal de Sicrano...
Chegados a este desvario, tomo para mim que a melhor produção (depois do minimalismo de Wieland Wagner) é a versão concerto com interpretação teatral dos solistas, a qual permite ao espectador ouvir a música e as palavras e a forma como são ditas, e assim imaginar o contexto da teatralização. Fazendo mentalmente a sua própria produção. Pessoal e intransmissível.
Turner, The parting of Hero and Leander
segunda-feira, 26 de novembro de 2018
Quanto valem os artistas vivos
Este quadro de Hockney foi vendido há dias por 90 milhões de dólares, estabelecendo o valor mais alto pago por uma obra de um artista vivo. Afinal os vivos ainda valem alguma coisa!
Numa perspectiva mais alargada, porque não equacionar as mais ou menos drásticas mudanças de paradigma nas situações até aqui aceites sem polémica... Vivemos numa sociedade capitalista com avanços e recuos no establishment sociológico. E começamos a ouvir - por dentro deste capitalismo - vozes que o colocam em causa. Desde os movimentos ecológicos até às novas formas de organizar os núcleos populacionais, sejam cidades grandes ou terriolas. Desde a indiferença eleitoral até aos recentes movimentos populistas. Desde os crescentes lucros das empresas, até então globalmente aceites, até à defesa de que esses lucros terão de reverter em boa parte para o benefício da sociedade. Vemos uma forma de estar no capitalismo totalmente diferente da que tem existido e sido amplamente aceite.
Aproxima-se uma nova ver de viver, uma transformação do capitalismo tal como o conhecemos até agora. O capitalismo vai ter de ter um banho de socialismo.
Hockney, pool with two figures
quinta-feira, 15 de novembro de 2018
O triunfo da bisbilhotice
No século passado, Guy Debord descreveu a praga que percorre estes tempos de comunicação fácil, chamando-lhe a sociedade do espectáculo.
A primazia do entretenimento fácil, como anestesia do pensamento e congelação da criatividade. A bisbilhotice como única alimentação da vida. A promoção das fake news como justificação para um mundo em que todos estamos bem informados. Um triste espectáculo!
Esta cultura da ocultação da engrenagem dos poderes através da construção de comunidades amorfas, tem sido um sucesso recorrente para qualquer das correntes do poder, que assim fica liberto para o seu livre exercício. E na altura de plebiscitar, reforça-se o espectáculo.
Isto, a propósito das mais actualizadas correntes falantes, as tecnológicas, digitais, e até virtuais (!). No rescaldo da web summit, a alegria tecnológica do espectáculo em palco, não é mais que a cobertura do espectáculo de bastidores, feio, porque revelador da verdadeira natureza humana. A sofreguidão na busca de investidores para uma maioria de projectos que são uma forma de vida dos novos chicos espertos. Com a benção dos espectadores.
Vieira da Silva, Tours d´Armes
quarta-feira, 24 de outubro de 2018
turismo míope
Se Portugal esteve turisticamente na moda, porque não se aproveitou para renovar a oferta, que coloca o país no radar de um turismo poupadinho, de forma radical privilegiando o segmento que atrai o turismo de luxo? Miopismo político e empresarial.
Tal como os inúmeros violinos de Picasso, poderia Portugal ter ofertas para todos os segmentos. Faltaram violinistas com ambição e visão de futuro. Os erros pagam-se. Nomeadamente, quando um país é pobre de recursos alternativos.
Picasso, violon 1913 e 1915
Bracque. La musicienne 1917
Sempre
A mente é um labirinto onde frequentemente nos perdemos, mas onde obrigatoriamente temos de nos encontrar sob pena de definharmos.
Vem esta constatação a propósito do bombardeamento de notícias que propagandeiam a alarvice, a obscenidade gratuita, o voyeurismo, e se assumem cada vez mais como estandartes de uma nova versão da indústria do entretenimento. As massas gostam, por isso produz-se mais e mais, nem interessa se o que se divulga é verdade, é uma verdade distorcida ou é uma mentira.
Mas somos humanos, caramba! Não podemos deixar que nos atolem a vontade na lama ébria. Atentos às suas mutações que nos pretendem enganar. Vigiemos a nossa mente, olhando de vez em quando para o passado, para ver se os valores que sempre defendemos ainda nos dizem alguma coisa.
Temos de nos erguer desta baixeza e repudiá-la. Enterrá-la no cemitério do esquecimento.
Gosto destas palavras, e aqui as posso aplicar, de Maya Angelou:
Just like moons and like suns,
With the certainty of tides,
Just like hopes springing high,
Still I'll rise.Marc Chagall, Les portes du cimetière
terça-feira, 2 de outubro de 2018
O Turismo redescoberto
O turismo parece ter sido redescoberto em Portugal. E a ele se tecem loas.
Exageradamente, no mínimo. O turismo não passa de uma nova forma de colonização, obrigando o autóctone a canalizar a sua potencial produtividade para a obtenção de receitas na exploração desse filão, desse novo El Dorado. Ou seja, o residente vai-se tornando progressivamente dependente do turismo.
Tal como aconteceu noutras formas de colonização, o turismo em massa mata a cultura, banalizando a sua exterioridade e impedindo a percepção da sua interioridade.
Um mal nunca vem só!
Hoje, o turismo povoa as cabeças de governantes e governados, com ilusões de progresso económico, mas que o é apenas - e de forma não generalizada - financeiro. E redutor, na medida em que trava a criatividade que - ela sim - conduz à produção de riqueza sustentável, ao progresso económico e social.
Associei turismo ao nosso Minho, às gentes minhotas, e lembrei-me deste quadro maravilhoso.
Sónia Delauney, Mercado no Minho
quinta-feira, 26 de julho de 2018
Ontem, o Azul na colina verde
Nem de propósito, o Azul de que falei há dias, voltou ontem a Bayreuth. Uma encenação de compromisso entre o conservadorismo e o progressismo, em que conservador é o que guarda valor numa tradição imutável, e o progressista é o que aplica uma nova leitura da obra, recusando o imobilismo.
O Azul dominou toda a versão, transportando-me para dentro dos quadros de van Gogh, de uma beleza triste, escura nas trevas de uma idade qualquer. Tudo se resolve no final: Lohengrin despe as vestes de um electricista que trouxe luz a uma sociedade obscura, sem rumo. E veste o traje da hipocrisia na noite de núpcias, retirando a Bíblia das mãos de Elsa, acorrentando-a com cabos eléctricos. O representante do Graal mais se assemelha a um Merlin. E no fim, a bruxa sobrevive, com Elsa, repudiando as exigências irrealistas enquanto o resto daquela sociedade decrépita morre. Fica a esperança. Nas mulheres.
Diz-me Azul Azul, haverá Azul mais bonito que o meu...
van Gogh, noite estrelada
segunda-feira, 23 de julho de 2018
O Azul, sempre
Não vou definir o que é o Azul. Regressei há pouco da experiência dos Wagner Days de Adam Fischer. Com o Tristão senti-me Azul, com o Holandês fiquei azul. Na semana passada foi o Parsifal como Audi o vê - fiquei azulinho - e como Petrenko o sente - fiquei Azul. E aqui, com uma só obra, coexiste o azul de alguma raiva e o Azul de algum êxtase.
Este tema azul, é só uma desculpa para vir aqui, de relance.
Zao Wou-Ki, 22.1.68
quinta-feira, 26 de abril de 2018
A IA, na Banca ou na Pintura
Treme-se de medo porque a inteligência artificial (IA) só irá criar desemprego. Claro que serão necessárias políticas sociais adaptadas e actualizadas aos sucessivos novos modus vivendi que as novas tecnologias aportam ao nosso dia-a-dia.
Existem, todavia, funções que podem, com grande vantagem, ser operadas pela IA. Com o descrédito que a banca granjeou nos últimos anos, veio uma avalanche de controlos, de normativos de supervisão que arrastam exércitos de gente para os estudar e depois implementar. O custo de tempo e de pessoas para assegurar que os procedimentos são compliant pode e deve exigir que a IA se dedique à sua área, libertando meios para outras áreas mais difíceis de substituir por robots.
Passam agora 100 anos do nascimento de Santa-Rita Pintor. Pode-se desenvolver a IA por forma a continuar a sua obra?
Santa-Rita Pintor, Violino e Candelabro
quinta-feira, 15 de março de 2018
Inteligência Insuficiente
Mais que prestar tributo na morte do genial S.Hawking, também ele wagneriano, apetece falar sobre a inteligência. A sua limitação.
O Homem tem de reconhecer que a sua inteligência não abrange a compreensão ou a explicação da origem do mundo, dos mundos, do universo ou dos universos. Como explicar a origem da origem?
Atiramos a toalha ao chão, ora remetendo a origem para um deus (e quem ou o quê que criou deus?), ora aceitando a impotência da compreensão ainda que formulando teorias que nos conduzem na dissipação de dúvidas.
O Big Bang pressupõe uma existência de algo que explode. Qual a origem desse algo? Podemos sempre dizer que a origem é o nada absoluto. Mas temos de confessar que não se concebe um nada absoluto, porque a existência do nada significa já que o nada deixou de existir. É como dizer que antes do nada, nada havia, mas assim, continuamos a pressupôr uma existência qualquer. E não saímos desta espiral devoradora, qual buraco negro num universo cheio de traças. Raciocinamos impotentemente, até que adormecemos e sonhamos com as contas a pagar, com as realidades que compreendemos, para nos sentirmos inteligentes.
Voltando a Hawking: Remember to look at the stars and not down at your feet.
Pomar, D.Quixote
sexta-feira, 9 de março de 2018
Predadores
Entrou-se definitivamente na pós-democracia. Por todo o lado, as correntes populistas ganham força e chegam ao poder. Como ideias só têm a crítica sem ética, polvilhada de propostas espúrias aplicadas depois de moldar as leis. Veja-se a Polónia, onde o sistema judicial ficou nas mãos do poder político e já se faz estragos: é considerado crime falar ou ensinar em "colaboração de polacos com os nazis"; é crime falar em "campos de concentração polacos". Semeia-se uma nova forma de reescrever a história. Pode ser um exemplo caricato, mas é representativo do que estas cabeças produzem e significativo ideologicamente.
À nossa volta, os populismos avançam, ganham eleições, votados por populações com medo das mutações sociais. O papão da insegurança mundial, é propalado sem dó nem piedade, assustando os menos preparados culturalmente e exacerbando os nacionalismos.
Entre os populismos e os poderes absolutos, apenas uma pequena parte do mundo ainda respira democracia.
O que é que está a falhar na democracia? A educação, o aculturamento das populações. Sem uma forte aposta na educação não se conseguirá travar esta minoria sem ética.
Se se olhar para os primórdios da humanidade, conclui-se que o Homem é o maior predador que alguma vez existiu, e que continuará numa fúria incontida de fuga para a frente, que o levará a procurar outros planetas para se expandir.
Será a consequência do espectáculo triste hoje instalado.
Assiste-se hoje à tomada de poder por novos predadores, estes populistas, agitadores de espantalhos que têm acolhimento no resultado do nosso défice cultural. Por uma nova minoria de predadores que não encontra oposição na maioria titubeante dos restantes políticos.
Vamos assistir ao incêndio das nações.
Vieira da Silva, O incêndio
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
Imortalidade
É verdade que o Homem está a progredir mais rapidamente na exploração científica. Nota-se um caminho que vai ganhando forma: a inteligência artificial. Aquilo que começou por ser uma forma de criar máquinas que ajudassem o Homem nas tarefas repetitivas, tem vindo a dar lugar ao conceito de super-homem. Está pois, perto o passo para se pensar na imortalidade. E depois?
Como lá chegar?
Começámos com as máquinas que fazem tarefas simples, que jogam connosco, que estabelecem uma conversa, que nos superam na perfeição do raciocínio lógico. Paralelamente, já temos órgãos artificiais que casam na perfeição com o resto do organismo. Para fechar o círculo, estamos a aventurar-nos na compreensão do cérebro, no estudo dos estímulos. Já temos partes mecânicas do corpo - braços, pernas - que obedecem à vontade, ou seja, já conhecemos o seu circuito de estímulos cerebrais para as dominar.
O cérebro é todavia, a parte mais desconhecida do nosso corpo. Por isso, criar máquinas à nossa semelhança, mais tarde ou mais cedo, vai provocar o avanço no conhecimento. O perigo está em criar máquinas que superam o criador e o possam controlar ou, no mínimo, capazes de impedir serem controladas pelo criador.
Com a capacidade de criar todas as partes do corpo humano, e ir substituindo as que vão falhando por novas, teremos o Homem com uma vida cada vez mais prolongada, até à eternidade.
O que irá distinguir depois o Homem da Máquina? Bom, isto não irá acontecer a todos os Homens, da mesma forma e ao mesmo tempo. Perfila-se então uma nova raça - os primeiros Híbridos - que irão comandar o resto da população. Racionalmente, procurarão assegurar o equilíbrio do ecossistema. Ou cortam o crescimento populacional - a bem ou a mal. Ou procurarão outros planetas para exportar os excedentes.
Assim escrito, de rompante, isto parece utópico. Mas não é ficção científica! É o caminho que a Ciência está a percorrer. O meu lado optimista quer acreditar que os valores humanistas prevalecerão. O meu lado pessimista escolheu este quadro.
Karel Appel, bataillhe des animaux
quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
Lavar os olhos
A propósito dos prémios aos artistas contemporâneos, senti necessidade de lavar os olhos. Precisamente com o que deu o nome à corrente Impressionista.
Monet, impressions sur le levant
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
Prémios
Desta vez foi o prémio Turner. Atribuído a L.Himid. Porquê? Por ser preta, africana e ser a mais idosa premiada? Por ser uma voz que reflecte a desigualdade entre pretos e brancos? e entre homens e mulheres? Por mérito (outstanding artist)?
Sendo este o prémio mais importante para a arte contemporânea, e ao olhar para os últimos premiados, parece-me que a arte contemporânea nada tem de disruptivo, e de contemporâneo só tem a data da criação.
A justificação oficial baseia-se nas três exposições que a artista fez em Oxford, Bristol e Nottingham. Só?
O mérito dos artistas e das suas obras passará sempre pelo imenso crivo das apreciações subjectivas.
Já os prémios podem resultar de enviesamentos da subjectividade, reflectindo posições políticas (do politicamente correcto ao incorrecto) e sociais. Parece-me ter sido este mais um caso em que o mérito foi ajudado pela avaliação sócio-política.
Lubaina Himid, Le Rodeur e It´s nice that
quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Estratégia
A nossa incapacidade em estabelecer uma estratégia de desenvolvimento socio-económico, nem nos deixa saber se seríamos capazes de a executar.
A nossa incapacidade de organização tem sido esquecida e desvalorizada pela nomenclatura medíocre que ostenta uma forma de exercer o poder de curto prazo sem responsabilidades de longo prazo. Pior, uma nomenclatura que não se tem cansado de elogiar a qualidade única dos portugueses, a sua capacidade de improvisar saídas de situações menos boas. O desenrascanço. Uma falsa qualidade: a improvisação é inimiga da organização e, sem esta, não se faz nascer uma estratégia que permita construir um futuro.
Bateu-nos à porta uma catástrofe devastadora do eco-sistema. Depois dos incêndios terem destruído a componente verde daquele, virá a contaminação das águas com as chuvas sujas que arrastarão consigo para os lençóis freáticos as cinzas e outros poluentes.
A água é um bem cada vez mais precioso - uma evidência esquecida, descuidada.
Segue-se a desertificação, que também nos ameaça bater à porta. Planos? Estratégia? para a combater? Para quê, se sabemos desenrascar-nos...
Não temos orientação própria num mundo globalizado, que nos retira progressivamente a independência. Até nem seria mau de todo, esta forma de dependência, caso os dirigentes europeus (e mundiais) não fossem globalmente medíocres ou mesmo maus. Nem por esta via podemos esperar orientações que nos encaminhem para uma alameda de desenvolvimento sustentável. Que nos obrigue a salvaguardar os recursos essenciais, cada vez mais ameaçados pela tropicalização invasora que nos irá secar a garganta, uma vingança natural do despeitado aquecimento global.
Portugal não tem outra via que não seja a protecção dos seus ameaçados e erodidos recursos naturais, que não seja o investimento em recursos renováveis, para uma independência energética, num cenários real de ser um país com grandes rios que nascem em Espanha, país que também será devastado no avanço da tropicalização do sul da Europa.
Temos tanto Mar!
E temos tão pouco tempo para reagir ao desperdício que a falta de estratégia permitiu.
De cá, da Europa, do Mundo, não se veem estrategas.
No fim, sobram-nos as obras que tantos compositores musicais escreveram: os Requiem.
Hopper, Automat
sexta-feira, 3 de novembro de 2017
Os novos Cruzados
Os robertos começam sempre com pezinhos de lã e acabam à traulitada. Esta imagem de infância é a que me ocorre com a avassaladora onda de moralistas que se tem vindo a abater sobre os meios de comunicação, agora incluindo as chamadas redes sociais.
Estes novos Cruzados começaram de mansinho, opinando sobre as touradas, sobre a alimentação saudável, enfim, sobre como ainda somos uns selvagens. Ganharam audiência e prosseguiram, agora num tom mais firme, sobre os homofóbicos, sobre a igualdade de géneros, sobre as minorias, sobre o racismo. Num pulo, sobre os múltiplos fascismos e, por isso, sobre a necessidade de acompanhar a sua condenação com uma injecção de normativos, impondo o que é correcto e recusando liminarmente o que é incorrecto. Sem mais, abolindo o contraditório.
Assiste-se, por todo o lado, a humilhações e a condenações gratuitas infligidas, por estes moralistas, sobre quem demonstra ser politicamente incorrecto. E rapidamente, mas onde menos se poderia esperar fragilidade de pensamento, nas escolas e universidades, são impostas regras de conduta e, mais grave, proibições sobre conteúdos educacionais que propiciem a difusão do incorrecto. Qualquer figura da História da Humanidade que, aos olhos destes moralistas, tenha representado algo incorrecto (por exemplo, estudar Nietzche ou Wagner, pode ajudar a difundir pensamentos incorrectos).
Existe aqui uma fobia de contaminação que está a ser combatida por estes novos Cruzados, tentando reescrever a História, pela eliminação de protagonistas do pensamento politicamente incorrecto. Este crivo censório tem vindo a crescer e a alargar-se a todos os comportamentos sociais. O que é correcto comer, ler, usar, ensinar, dizer, fazer. Uma ditadura nascente, em nome da libertação das minorias pesadamente oprimidas ao longo dos séculos. Em nome de uma igualdade, rasga-se a História, e impõem-se comportamentos. Este Cruzados usam os meios de comunicação para impor pensamento e regras sobre o que deve ser socialmente aceite, vigiando-se uns aos outros, nas purgas e na sua aplicação.
Mas a igualdade conquista-se na evolução da Humanidade, faz parte do nosso avanço cultural. Considerar que a igualdade se impõe, rasgando as páginas da História onde figuram figurões indesejáveis, é ignorar que os contextos passados explicam onde chegámos e como chegámos.
Assiste-se a este retrocesso cultural, que não pode acabar bem, pois ao amputarmos a explicação do que somos hoje, vamo-nos perder na desorientação de um colectivo falaciosamente justo.
Chichorro, roberto
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
Manifestações artísticas
Quantas vezes dou por mim a ver ou ouvir manifestações de arte, com letra muito pequena.
Como a absorção dessas manifestações é subjectiva, passo por cima da hipótese acusatória de eu não a compreender. Porque, para mim, a Arte não é essencialmente para ser compreendida, mas sim sentida, por todos os sentidos.
Dos abstracionismos que nada me dizem, até às instalações que literalmente gozam com o espectador; da música experimental até às performances que só visam chocar o espectador; do vestuário criado para absoluto desconforto até à cozinha gourmet mais avessa ao prazer do consumidor. Tanta arte feita apenas para ser diferente, para chocar sensibilidades e chocar contra o que existe. Enfim, arte feita para esconder a capacidade de inovar, de criar, algo que seja aprrendido com prazer.
Porque razão se assiste a uma movimentação galopante destas manifestações de arte? Sempre houve disrupção com o estabelecido: a Arte é disruptiva. Mas ultimamente assiste-se a um multiplicar de nadas que, me parece, reflectem a sofreguidão de viver um presente, de qualquer maneira, sem sofisticação que eleve a qualidade humana, porque se tem medo do futuro.
Estas manifestações de arte não são, de facto, o meu carpe diem.
P Calapez, arte sem querer
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
Opera inspirada em Filme
A ópera reinventa-se. Para além da sua inserção nas novas corrente musicais, ela abraça agora a inspiração que alguns filmes lhe dão.
O compositor Thomas Adès estreia este ano The Exterminating Angel, inspirado no filme do mesmo nome de Luis Buñuel. Aqui o surrealismo a não facilitar a aparição da banalidade.
Pela sua forma de filmar as emoções, creio que Hitchcock daria um bom "realizador" de ópera. E sei a falta que faz um grande director nas produções operáticas dos dias de hoje (va de retro Castorf). Inspirado no seu Marnie, vai também estrear a ópera homónima de Nico Muhly.
Estamos, então, perante uma nova corrente, em que os libretos se vão inspirar nos filmes. E aqueles exemplos não são os primeiros a marcar esta tendência. Nina Stemme já fez o papel da Ingrid Bergman (outra vez Hitchcock, agora com Notorious) na ópera Notorious de Hans Gefors. Talvez a primeira experiência tenha sido em 2000, com Dead Man Walking, de Jake Heggie, que a repetiu com It´s a Wonderful Life de Frank Capra.
Mas parece que a tendência está agora a acelerar: Este ano já estreou a Autumn Sonata de Sebastian Fagerlund, baseada no filme de Ingmar Bergman; Charles Wuorinen compôs a sua Brokeback Mountain; Olga Neuwirth pegou no Lost Highway de David Lynch; Missy Mazzoli adaptou Breaking the Waves de Lars von Trier (este senhor foi sondado para fazer o Anel em Bayreuth, o que prova que existe uma ligação entre a direcção de um filme e a de uma ópera); Poul Rudders pegou em Dancing in the Dark, também de Triers.
Que se passa então? É só uma corrente natural entre Livro, Filme e Ópera (recordo o Parsifal de Hans Jurgen Syberberg, porque me é muito caro, pois muitas outras óperas passaram a filme).
Mas, não será que existe um explicação mais comezinha para esta tendência? Creio que poderá também existir uma explicação comercial, na medida em que uma ópera de um filme sucesso de bilheteira, atrairá certamente mais público.
E aqui chegados, se assim se provar que as audiências operáticas aumentam com o fluxo Livro-Filme-Ópera, estaremos perante o alargamento dos horizontes hollywoodianos às salas de ópera. Será a fase dois do que o Met de NY nos dá todos os anos ao difundir as suas óperas nas salas de cinema selecionadas pelo mundo fora.
Resta esperar a que a composição musical supere a facilidade com que aquele fluxo pode cair na banalidade, e que o feitiço não se volte contra o feiticeiro.
Zao Wou-Ki
quinta-feira, 19 de outubro de 2017
Aspen, the magazine in a box
Aspen, the magazine in a box (não confundir com a homónima que hoje se publica). Uma grande ideia nascida em 1965. Uma ideia genial, a revista vinha numa caixa cheia de material representativo dos temas abordados editorialmente.
Uma caixa especial. Que seguiria uma temática em cada número: podia conter publicações desdobráveis, discos vinil, filmes 8 mm, etc. A revista pretendia ser um repositório do que se passava na linha da frente cultural de então. Literalmente, arquivando exemplares dessas manifestações artísticas.
No seu primeiro número, a editora Phyllis Johnson anunciava numa carta que a revista tinha por objectivo ser uma "magazine" no sentido original da palavra "magazine": um armazém. Que recolheria testemunhos do seu tempo, num formato 3D, incitando quem fizesse os anúncios para a revista, a seguir o mesmo princípio, fazendo incluir amostras dos seus produtos.
As tradicionais páginas agrafadas não existiriam enquanto formato da revista, e os artigos seriam unidades independentes de formato e cor diversos, ilustrados com todo o tipo de materiais, que fisicamente fariam parte da caixa.
Assim, esta maravilhosa aventura editorial, que a partir do seu terceiro número teve como editor Andy Warhol, atravessou a cena de performance nova-iorquina, o movimento minimalista até ao movimento Fluxus, recebendo colaborações, para além de Warhol, de David Dalton, George Macinus, Dan Graham, Brian O´Doherty, William Burroughs, Merce Cunningham, Gerard Malanga, John Cale e Velvet Underground, La Monte Young, Yoko Ono e John Lennon.
A mim, encantou-me a preciosidade da décima sonata de Scriabin num delicioso vinil.
Durou 10 números, morrendo em 1971 a linda ideia de transmitir numa caixa "all the civilized pleasures of modern living, based on the Greeek idea of the whole man as exemplified by what goes on in Aspen, Colorado, one of the few places in America where you can lead a well-rounded, ecletic life of visual, physical and mental splendor".
Uma viagem por aqueles dez números em www.ubu.com/aspen.
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
A Monarquia
Sempre considerei a monarquia a forma de governo menos má.
As personagens que encarnam o papel de soberanos têm tido, todavia, um desempenho descredibilizador da instituição Monarquia. É tudo um infeliz sinal dos tempos deficientemente cívicos. De gente cada vez menos preparada, e sem qualquer sentido de Estado.
Ontem à noite, foi a vez do rei vizinho. Numa intervenção cheia de expectativa perante os tristes acontecimentos na Catalunha, o rei falou para apontar o dedo acusador, esquecendo o seu papel, não produzindo qualquer esboço, sequer, de solução. Seguramente, conseguiu que o número de republicanos crescesse.
E assim, de reizinho em reizinho, se vai caminhando para o fim das monarquias. Em substituição da inutilidade monárquica, as repúblicas e os seus sufrágios abertos a todos os níveis culturais e cívicos, irão produzindo crises sem árbitro, ao livre arbítrio das mesquinhas ambições individuais e/ ou partidárias. Os exemplos abundam, e estremecemos com eles. Basta olhar para o outro lado do Atlântico.
Repito, só com um povo educado, a humanidade se pode desenvolver com dignidade e garantindo uma gestão governativa elevada.
Keith Haring, king and queen
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